Ventos do Destino

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Já era final de tarde e eu estava cansado de tanto correr pra lá e pra cá, fiquei brincando o dia todo com meu amigo na colina perto de casa, então decidi me deitar para o pôr do sol. Era um céu lindo, todo alaranjado e com poucas nuvens, e bem ao final do horizonte estava aquela grande estrela.
- Eu poderia olhar para o céu para sempre, é muito bonito. – Eu disse.
- Sempre? – Meu amigo Ax perguntou.
- É, por que não?
- Sempre é muito tempo, não acha?
- Mas é tão bonito! – Eu exclamava enquanto sorria.
- Mas há coisas mais bonitas por aí, como as estrelas. – Ele me dizia.
- Você prefere as estrelas? Eu prefiro o sol.
- Estrelas brilham mesmo no escuro, isso é bonito.
- E o sol clareia o mundo todo com seu poder! É mais bonito ainda! – Brincávamos de discutir.
- Ainda prefiro as estrelas.

- Alex ? – Ouvia o grito da minha mãe de longe.
- Já vou, mãe! – Disse enquanto me despendia de Ax.

Desci a colina correndo e logo cheguei em casa, que ficava do lado. Minha mãe me abraçou e me mandou tomar um banho, e eu realmente precisava de um. Entrei em casa e logo fui para o banheiro, e ao entrar na água quente senti meu corpo relaxar e o cansaço de correr tanto chegou. Logo que sai senti um pouco de sono, mas minha mãe veio falar comigo.

- Alex, você precisa ir visitar seu avô. É melhor ir antes que fique muito tarde.
- Ah, tudo bem, vou indo.

Meu avô não morava muito longe de casa, apenas três ruas de distância. Já estava praticamente de noite mas o bairro ali era tranquilo e as ruas estavam movimentadas. Mesmo sendo um garoto de 7 anos, estava tudo bem. Caminhei e fui olhando para as estrelas e me lembrando da conversa com Ax. As estrelas eram realmente bonitas, mas ainda achava o sol mais. Eram tantas, eu tentei contar mas perdi a conta antes de dez. Uma em especial brilhava muito forte e era muito linda.
Cheguei na casa do meu avô e a porta estava aberta, entrei e ele estava sentado no sofá enquanto via o jornal.
- Oi vovô. – Eu disse baixo.
- Alex, você chegou. – Ele se levantou, veio até mim e esfregou minha cabeça.
- A mamãe disse que você queria falar comigo.
- Sim, precisamos conversar um pouco.





- O que é vovô?
Ele se sentou, olhou para os lados e um pouco nervoso e começou a falar.
- A vovó não está bem. Nada bem. Você entende?
- Acho que sim, ela vai pro médico depois volta pra casa, não é?
- Alex... não é bem assim. Talvez... ela não volte pra casa.
- E pra onde ela vai?
- Pra um lugar bem longe.
- Por que? Podemos visitá-la? – Eu não entendia.
- Acho que não, Alex.
- Mas por que ela tem que ir pra longe? Ela sempre ficou perto da gente, e agora do nada vai se mudar? Eu quero falar com ela. – Começava a lacrimejar de tristeza.
                Meu avô veio e me abraçou e não disse nada por um momento. Eu fechei os olhos e comecei a chorar, quando abri e olhei para ele, estava chorando um pouco também.
- Você vai deixar ela ir? – Eu perguntava abraçado a ele.
- Eu não posso escolher se ela vai ou não, já é certo de ela partir.
- Eu posso vê-la ainda?
- Sim, vamos amanhã, que tal?
- Tudo bem.

Meu vô me acompanhou até em casa mas sem dizer nada. Me deixou na porta de casa e voltou caminhando para sua casa. Logo que cheguei senti todo cansaço de brincar a tarde toda com Ax, então fui deitar. Mas antes, abri a janela do meu quarto e observei um pouco as estrelas. Aquela que brilhava muito estava ali, olhando para mim. Fui dormir para no dia seguinte ir ver minha vó.

Acordei um pouco mais tarde do que costume por não ter que ir para a aula, a janela estava fechada agora, provavelmente minha mãe fechou quando acordou. Abri a janela e lá estava o sol, parecia que todas as estrelas da noite tinham se juntando em uma só, que chegou a me deixar com a visão ofuscada por uns segundos. Fui até a cozinha, onde minha mãe estava.

- Bom dia, pequeno cabeçudo. – Ela disse enquanto tomava uma xícara de café.
- Oi, mamãe. – Eu respondi enquanto coçava os olhos.
- Você vai ver sua vó, né? Seu vô vai passar aqui daqui uns 20 minutos, coma alguma coisa e se arrume.
- Tudo bem.

Comi um pouco de cereal e voltei pro meu quarto me arrumar. Estava meio frio, considerando que era o começo da manhã, então coloquei uma calça, um tênis, camiseta e uma blusa. Logo que terminei de me arrumar meu vô chegou. Fui até a entrada de casa, o cumprimentei e despedi da minha mãe, ambos estavam com uma cara péssima. Entrei no carro e fomos até o hospital, nós dois quietos.

Quando chegamos lá, não havia muitas pessoas, apenas os funcionários, inclusive a atendente que era uma mulher loira e parecia bem nova. Meu vô entregou um papel para ela e conversaram um pouco, depois fomos caminhando até o elevador.


- Você sabe que a vovó está bem doente, não é? – Ele me perguntou enquanto subíamos de andar.

- Sei, mas ela vai melhorar, tenho certeza – Respondi.
- Você tem o otimismo do seu pai.
- Otimismo?
- É acreditar que tudo vai acabar bem.
- De noite o sol vai embora, ele se despedaça em milhões e milhões de estrelas, mas na próxima manhã elas se juntam e o sol volta a viver, e ele é a maior coisa desse mundo, então as coisas menores devem ser assim também!
- Haha, da onde você tira essas coisas?
- O Ax que me conta às vezes.
- Ax? Quem é Ax?

O elevador parou e a porta se abriu. Estávamos em um corredor que dava para várias portas. Ele se esqueceu da pergunta e logo saiu do elevador. Segui até ele e estávamos de frente para um quarto com o número 84. Ele abriu a porta e lá estava vovô, deitada com uma enfermeira do lado.
- Bom dia. – Disse meu avô.
- Bom dia. – Disse a enfermeira.
- Oi Robert. Oi Alex! – Disse minha avó.
- Venha cá, garoto.

Corri até minha vó e a abracei bem forte. Ela colocou a mão sobre a minha cabeça e começou a acariciar de leve.
- Saudades de você, Alex.
- Vovô disse que você vai pra longe, por que? – Disse com lágrimas nos olhos.
- Eu? Vovô disse isso para você? Que bobo, ele sabe que o hospital fica perto de casa. – Ela disse com um sorriso no rosto.
- Eu sabia, você vai voltar pra casa quando?
- Não vai demorar muito, só mais alguns dias. – Via seu olho mudar de forma como se fosse chorar.
- Promete ?
- Prometo.

Demos os dedinhos e fechamos a promessa.

- Posso falar com seu avô um pouquinho, Alex? – Ela me perguntou.
- Tudo bem, mas volto pra falar com você.
- Faça isso.




Sai do quarto do hospital e fui até o banheiro limpar meu rosto por ter chorado. Não ficava muito longe e tinha placas indicando onde o banheiro estava. Lavei meu rosto e sequei com uma folha de papel e saí do banheiro. O corredor era como uma única janela, conseguia ver um lindo horizonte. Ainda era de manhã e o sol estava bem distante, mas sem deixar de estar lindo.

- Ax, estrelas se apagam? – Eu perguntei.
- Acho que não, elas só vão para outro lugar.  – Ele respondia.
- Você tem certeza?
- Não, mas é o que eu acho, são tantas estrelas por aí, é difícil saber! Pode ser que elas nunca se apaguem mas sempre tenhas novas estrelas se acendendo.
- Novas estrelas?
- É, ou que estão muito longe, por isso não conseguimos vê-las. Como quando o céu fica escuro, ou mesmo quando está estrelado, há lugares que não há estrelas, talvez elas apareçam por lá algum dia.
- E a lua? O que será que ela é?
- Acho que é uma parte do sol que não consegue virar estrela! – Ele dizia.
- Uma parte do sol? Então as estrelas se juntam na lua e viram o sol?
- Acho que sim!
- Por que as pessoas sabem tão pouco das estrelas, sol e lua? São tão lindos.
- Acho que as pessoas esquecem um pouco do que é belo só pra se trancar em seus próprios mundos. – Ax dizia.

Voltei para o quarto, os dois ainda estavam conversando, fui me aproximando até que me viram.
- Vem cá, Alex. – Minha vó disse.
- Oi vovó.
- Alex, o que te faz feliz? – Ela perguntou.
- Me faz feliz? Não sei... Brincar, olhar as estrelas, correr, comer a lasanha da mamãe, várias coisas.
- E qual seu sonho?
- Meu sonho? Eu... eu acho que não tenho sonho.
- Você não tem sonho, mas como assim, todos tem um sonho.
- Mas sonho é algo que as pessoas precisam conquistar para serem felizes, eu já sou feliz com você, o vovô e a mamãe! – Eu disse enquanto esboçava um sorriso no meu rosto.
- Entendi. – Ela começou a chorar.
Eu olhei para ela e não entendia, vovô também estava chorando e fiquei triste, pensei que fosse algo que eu tinha dito, então comecei a ficar nervoso.
- Por que vocês estão chorando, eu arranjo algum sonho se isso deixa vocês tristes! Meu sonho é ir para a lua, pronto, tenho um sonho agora, parem de chorar! – Eu dizia tentando não chorar junto.
- Você é a criança mais alegre deste mundo, Alex. – Minha vó disse enquanto enxugava o rosto.
 - Quero que me prometa uma coisa, Alex.
- Tudo bem, o que é?
- Seja feliz, independente se você tem sonho ou não.
- Eu prometo!

- Vovó precisa descansar agora, tudo bem? Venha aqui quando quiser, vai demorar um tempinho até eu voltar pra casa.
- Certo, eu venho no final de semana! Tchau. – Me despedi dela com um abraço bem forte, assim como meu vô fez.

Antes de irmos entrarmos no carro, ele me levou até um jardim do hospital e sentamos num banco.

- Alex, você gosta de histórias? -  Ele me perguntou.
- Histórias? Ah, eu gosto das com bastante aventura, magias e essas coisas, por quê?
- E histórias reais ?
- Geralmente são chatas, não tem nenhum mago.
- Gosta de magia, então?
- Sim!
- Algum dia, quando você estiver mais velho, vai perceber que viver é a coisa mais mágica que existe.
- É? – Eu não entendia.
- Sim, você vai ver como é bom poder sorrir depois de chorar, ter amigos para te fazerem rir toda hora, amar, viajar, conhecer lugares novos, pessoas novas, errar, se levantar. Tudo isso torna viver, mágico.
- Eu quero crescer logo, então!
- Tudo passa muito rápido, não queira isso. Deixe o tempo dar tempo. Se eu pudesse, voltaria a ser como você, com a maior imaginação do mundo.
 - Eu vou perder minha imaginação?
- Não é isso, você vai deixar de ver o mundo com os mesmos olhos de hoje. Quer dizer, muitas pessoas deixam de imaginar, não seja uma delas, certo?
- Eu sempre vou imaginar muito, ainda mais sobre o céu!
- Por que o céu, Alex?
- Eu não consigo entender o céu por mais que olhe para ele, são tantas estrelas, a luz do dia torna tudo tão bonito. A lua mudando de forma, eu queria saber mais.
- O que são estrelas pra você, Alex?
- Não sei... pontinhos brilhantes, acho.
- Sabe, quando eu era um pouco mais velho que você, perdi minha mãe. A sua bisavó. Mas meu pai, seu bisavô, disse que ela tinha se tornado uma estrela. Então todas as noites eu olhava para o céu e ficava tentando adivinhar qual estrela era ela. Foram tempos difíceis para mim e para meu pai, mas acabei conhecendo sua vó, nos casamos, e pouco tempo depois meu pai também partiu. Ele virou uma estrela, junto da minha mãe. Mas logo veio sua mãe, depois você.
- Eu vou virar uma estrela? – Eu perguntava.
- Talvez. Mas guarde isso para sempre com você. Sempre haverá estrelas no céu e pessoas que iluminarão seu caminho ao seu lado. De alguma forma, sempre haverá uma luz com você.
- Uma luz comigo. Entendi.
- E você também deve ser a luz para aqueles que te amam, certo?
- Eu serei, como uma estrela na terra!
- Isso, agora vamos para casa.

Cheguei em casa e ainda era hora do almoço. Minha mãe estava na cozinha colocando os pratos na mesma e me perguntou como estava lá, ela estava com uma expressão estranha.
- Já que você não tem aula hoje, o que pretende fazer? – Ela me perguntou.
- Não sei, acho que vou ficar só brincando.
- Na colina, como sempre?
- Sim.
- Você não se cansa de brincar sozinho?
- Eu não brinco sozinho.
- Não? Com que amigos você brinca? – Ela me olhou com uma cara de espanto.
- Com o Ax, só.
- Ax...? Não conheço ele, por que não o traz pra casa algum dia?
- Ele é tímido, acho que sou o único amigo dele.
- Onde ele mora?
- Não sei, sempre o encontro na colina, nunca perguntei também.

Ela me olhou com uma cara de desconfiança mas não perguntou mais nada. Fui para meu quarto, troquei de roupa e subi para a colina. Ax já estava lá, me esperando, sentado olhando para o horizonte.
- Oi! – Eu disse.
- Oi, Alex. Chegou cedo. – Ele respondeu
- Sim, fui ver a vovó no hospital hoje e acabei não indo para a escola, agora tenho mais tempo para brincar.
- O que ela tem?
- Não sei, mas ela vai voltar pra casa logo. Ela me prometeu.
- Entendi.
- Ax, você tem alguma estrela no céu? – Eu olhava para o céu que ainda estava um pouco nublado.
- Se eu tenho?
- É, meu avô disse que quando as pessoas morrem elas viram estrelas e continuam iluminando as pessoas que amam do céu.
- Não sei, nunca parei pra pensar assim.
- Como você pensa?
- Que as pessoas viram histórias.
- Histórias ? – Eu olhei para ele.
- Sim. Todos não deixam uma história para contar?
- Acho que sim.
- E são tantas histórias que esse mundo tem.
- Qual será a mais legal de todas? Minha professora sempre conta sobre várias.
- Uhum, e qual história você deixará para o mundo? – Ele me perguntou enquanto desaparecia.





Muito tempo passou desde aquele dia. Ax tinha desaparecido e o antigo Alex também. Agora eu era uma pessoa que estava escrevendo minha história. Minha avó morreu pouco tempo depois que Ax desapareceu. Foi o primeiro funeral da minha vida que eu tenho memórias, o de meu pai eu ainda era recém-nascido. Foi terrível. Conforme eu cresci aprendi a perder coisas, mas muitas delas eu tinha como consertar ou substituir. Mas uma pessoa, é insubstituível. Ainda mais a segunda mãe. Meu avô já sabia que ela estava em estado terminal então se preparou para o impacto um tempo antes, mas não aguentou, acabou entrando em depressão.

Minha mãe o ajudou, ela também estava mal, perdeu a mãe, o marido e estava perdendo o pai, mas sempre se manteve forte. Ela dizia que agora tinha mais estrelas no céu brilhando pra ela. E só restava eu de perto.
 Eu cresci uma criança isolada de todos, mas sempre ajudava quando precisavam de mim. Eu me lembrava das conversas que tinha com meu avô e com Ax. Estrelas, histórias. O tempo em que eu brincava com minha própria imaginação e descobria o mundo todo sem abrir os olhos. E como meu avô disse, perdemos um pouco da imaginação, e eu consegui tornar minha vida mágica. Aos poucos fui me tornando um exemplo para as pessoas ao meu redor, assim como minha mãe foi para mim. Eu tinha ido morar em outra cidade junto com a minha mãe, mas em uma tarde decidi voltar até aquela antiga colina.

Nada parecia igual. A paisagem da cidade tinha mudado, a árvore que ficava no topo estava quase morrendo, a grama estava descuidada, mas mesmo assim proporcionava uma vista muito bonita ao horizonte. Eu me sentei no mesmo lugar que costumava me sentar e fiquei lembrando daqueles momentos. Olhei para o lado e não vi Ax. Mas sabia que ele estava por perto.

- Qual a história mais interessante do mundo. Foi o que te perguntei, não foi, Ax? Acho que acabei descobrindo depois de tanto tempo. A história que nos cativa, nos faz chorar, sorrir, a que mostra o bem contra o mal, realidade e magia, amor, ódio, aventura, ficção, romance, comédia. É a nossa história.

Naquela momento senti uma brisa que me arrepiou. Algo que nunca tinha sentido.

- É uma história que não escrevemos. E não podemos pular para o próximo capítulo nem voltar o anterior. Mas sempre queremos lembrar ou saber deles. É essa a história mais interessante do mundo, não é, Ax?

- Sim, é. E cabe a nós torna-la como queremos e como as pessoas vão lê-las. A partir do momento que eu parti, você começou a escrever mais sua história. E agora voltou para ler o início de tudo, continue assim.

E então Ax novamente era igual eu. A mesma altura, mesma aparência, mesmas ideias. Demos um aperto de mão e aos poucos ele foi desaparecendo, ambos com uma lágrima escorrendo pelo rosto. Não era minha imaginação ou meus sonhos indo embora, mas sim um capítulo que já escrevi que virou uma memória. Agora é hora de continuar escrevendo, até o fim.

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