Espelhos Brancos

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Estava cada vez mais frio e a noite estava chegando. Não havia um carro ou pessoa andando pelas ruas, o silêncio dominava. Eu apenas ouvia a minha respiração. Caminhava olhando para o chão pensando em como tudo estava fora do lugar. Meus planos, meus desejos, todos negados. Quando cheguei num cruzamento, olhei para cima e percebi que estava em um lugar desconhecido. Olhei para os lados, não me recordava daquelas ruas, tentei olhar para trás e tive a mesma sensação.
Poderia voltar atrás e me reencontrar, mas havia decidido levar a vida em um único sentido: Em frente. Então atravessei a rua e continuei caminhando até encontrar algum lugar familiar para me localizar.

Todos nomes das ruas eram estranhos, assim como as estruturas. Caminhei por mais alguns minutos e neve começou a cair. Mais frio, mais sozinho. Cada vez mais tudo ia se tornando mais branco, o que era estranho pois a neve estava caindo bem devagar.

Já tinha cansado de tanto andar então decidi parar. Olhei em volta e não conseguia enxergar nada, estava tudo claro, branco. Meu chão, o céu, eu apenas via branco. Dei uma volta em torno de mim mesmo e não via nada além daquela imensidão.

A uma certa distância vi uma luz que se destacava então caminhei até lá e percebi que não era uma luz, era um espelho. Mas um espelho um tanto quanto peculiar pois não exibia meu reflexo, mas sim uma imagem. Uma imagem de um dia quente, um dos melhores que já tinha vivido. Eu sorria sinceramente.

E então outro espelho apareceu e tinha a imagem de um outro dia com o mesmo sentido. Então outro, e outro e outro. De repente me vi cercado de espelhos com estas imagens e quando me aproximei de um deles, a imagem começou a se movimentar e emitir sons, em sua maioria, de risadas.
Percebi que eu sorria enquanto observava mas quando a imagem se tornou estática novamente, meu sorriso foi embora.
- Memórias são engraçadas. Tão boas por lembrarmos, mas também tão dolorosas por não voltarem mais. – Disse a mim mesmo.
- Ei, duvido você me pegar!  - Ouvi minha própria voz.
Vinha do espelho ao lado, uma imagem da infância que eu sequer lembrava. Que sorriso bobo eu tinha. O mundo era tão diferente. Ou seria eu?
Aos poucos fui vendo diversas felicidades que fizeram parte da minha vida. Amizades, amores, família, conquistas, até que chegou o último espelho. O que este guardaria?
Não havia imagem alguma, mas antes que eu me aproximasse, os demais mostravam cenas tristes que eu havia vivido, do mesmo modo como as anteriores. Algumas eu não lembrava e outras não queria lembrar. Todas se movimentavam juntas, diferente das de felicidade que era uma por vez.
Me perdi observando tudo aquilo, mas de repente elas pararam e não mostraram imagem alguma. Então me virei para o único espelho que não havia visto.
Quando me aproximei uma imagem foi se formando aos poucos, no começo distorcida e sem cor até que então a imagem se formou. Reflexo. Eu.
Fiquei surpreso tanto quanto ao reflexo como minha expressão, uma mistura de felicidade com sofrimento e espanto.

Ao meu redor novas imagem se formaram de mim. Até que as imagens foram sendo trocadas por coisas que eu nunca tinha visto. Eram tantas, tanto quanto alegres e felizes.
Não entendia o sentido daquilo, eram apenas imagens aleatórias, porém me vi em uma delas, mais velho e com um sorriso de canto. Percebi o sentido daquilo. Eram reflexos do futuro.

Todos desapareceram, restando apenas um a minha frente: O reflexo do meu eu futuro. Fiquei ali o encarando até que ele sorriu para mim.
 - Você ainda vai aprender muito.
Fiquei boquiaberto com aquilo e não consegui demonstrar reação enquanto ele se apagava aos poucos, continuando sorrindo.
Ter visto aquilo me deu uma nova concepção de momentos. Eu havia me esquecido quantos momentos ruins já havia vivido e como havia superado, assim como tantas felicidades tive e não me lembrei mais. Tudo que perdi, reconquistarei e terei mais. Quão fraco fiquei quando caí mostra quão forte ficarei. Estes momentos ruins me servem de aprendizado, ficar cada vez mais forte e passar isto adiante. Sentir, chorar, sorrir, ter todos estes altos e baixos é o que me faz estar vivo. Sorri ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria pelo meu rosto.
Este presente. Logo se tornará passado. Estas feridas. Logo se tornarão cicatrizes. Estas lágrimas. Logo se tornarão sorrisos.

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