O Espelho Perfeito

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Droga. Atrasado outra vez. A aula já havia começado há 15 minutos e eu ainda nem havia chegado na faculdade e ainda por cima era aquela maldita matéria. Comecei a andar mais rápido até que cheguei a faculdade, estava indo em direção ao laboratório de informática e percebi de longe a porta fechada, o professor ainda não havia chegado, menos mal. Se passaram poucos minutos então ele chegou e abriu a porta. Me sentei ao fundo enquanto era apresentado o conteúdo do dia. Simples demais.
Aproveitei o tempo que não precisava estar olhando para o professor para organizar meus arquivos que estavam na minha HD. Fui organizando até que encontrei uma foto perdida: Eu na escola quando tinha 13 anos.
Fiquei encarando aquela foto por algum tempo, eu estava tão diferente, tinha ideias diferentes e por mais que fosse criança na época, era difícil aceitar que era eu ali. Era difícil aceitar que eu tenha mudado tanto.
Deixei a foto em uma pasta bem fácil de achar e comecei a prestar atenção na aula e resolver os exercícios, mas aos poucos parando para refletir o que não havia percebido antes: Quem era eu poucos anos atrás.
A aula havia acabado então estava voltando pra casa quando uma mensagem chega, meu pai: ''Saí com uns amigos ontem a noite e falei sobre você, todos ficaram orgulhosos."
Orgulho... É algo que eu não sinto tanto de mim. Ainda sou novo neste mundo, tenho muito o que aprender para poder me orgulhar de algo, e mesmo se isso acontecer, ainda vou querer aprender mais e mais, nunca estarei satisfeito.
Meu objetivo é apenas crescer, se tornar alguém seguro de si, poder ser independente do mundo e descobrir o mundo e reinventá-lo a cada dia.
Entre tantos pensamentos acabei chegando rápido em casa. Silenciosa, como sempre, mas com tudo em seu lugar. Deitei e comecei a pensar se havia alguma coisa naquela casa da minha infância... Então lembrei que havia um pequeno boneco. Era um boneco qual gostava muito e decidi trazer pra me dar um pouco do conforto de um lar.
Levantei e o coloquei nas mãos, tinha ficado bem menor do que eu me lembrava. Por que eu gostava daquilo? Por que eu era daquele jeito? E ainda por cima... por que sou assim hoje?
Eu não me considerava uma pessoa ruim mas também não era quem eu queria ser. E quem eu era... não gostava nem um pouco. Apenas uma criança cheia de sonhos que não fazia nada para alcançá-los.
Ainda era final da tarde mas resolvi tirar um cochilo. Fechei as cortinas e deitei novamente, mas ficar pensando nisso me manteve acordado. Com pensamentos indo e vindo acabei definindo aquilo como idiotice, uma hora eu iria saber quem eu sou realmente. Aos poucos fui apagando.

Quando abri os olhos me senti um pouco tonto, como quem tivesse bebido na noite anterior. Olhei e volta e percebi que não estava no meu quarto. Em minha frente só havia uma porta entreaberta e com uma passagem de luz. Abri a porta devagar e me assustei com o que me deparei: Meu antigo quarto na casa dos meus pais.



Fiquei perplexo observando ao redor, todos meus brinquedos, a cor da parede, meu videogame, e na minha cama... havia alguém. Aquele pijama, só poderia ser uma pessoa.

A luz do abajur se acendeu. Um rosto sonolento apareceu.
- Quem é você ? - A voz fina dizia.
- Jim. - Respondi.
- Jim ? Mas eu sou o Jim.
- Eu sou você, Jim.
- Como assim você é eu? Eu estou aqui, você não pode ser eu.
- Me pergunte alguma coisa que só você sabe.
- Qual meu boneco favorito?
- Ignis.
- Como você sabe? Nem mamãe sabe!
- Porque eu sou você.
- Como isso pode acontecer?
- Não sei... só sei que estou aqui.
- Isso é... incrível! Quantos anos eu tenho?
- 19 anos.
- E eu já estou na faculdade de história?

Ali parei por um momento. Não havia me lembrado que queria cursar História quando era mais novo. Era uma ideia boba, mas conforme cresci decidi seguir em Psicologia.

- Não, estudo psicologia.
- Mas isso não é chato?
- Não, é muito legal.
- Me diga mais sobre como eu vou ser, quero saber! - Ele dizia empolgado
- Mas se eu te contar, você já vai saber de tudo que vai acontecer com você pelos próximos 6 anos.
- Mas eu quero saber!

Então decidi contar para mim mesmo quem havia me tornado e o que havia mudado. Ao passar de alguns minutos ele olhou para mim.

- Você mentiu?
- Não, por quê?
- Você não se parece nada com quem eu quero ser quando crescer.
- Mudei bastante.
- Não sei se isso é legal.
- Você não se orgulha de quem sou?


De repente havia acordado, estava de volta em meu quarto. Um sonho? Mas parecia ter sido tão real. Independente disso, me deu ideias sobre o que ocorreria se encontrasse meu eu do passado. Eu teria orgulho de quem sou hoje? Eu sou aquele quem eu queria ser? Estou caminhando para alguém melhor?
E não havia como encontrar a resposta. Eu não posso viajar no tempo e descobrir o que meu eu de outro tempo tem a dizer.
Eu... apenas faço o melhor que posso no momento que vivo, mesmo as vezes sendo insuficiente.
Me levantei e olhei para o espelho. Não conseguia imaginar aquela criança no meu lugar. Mas era eu. Quem era eu? Quem sou eu e quem será eu? Se eu encontrasse meu eu do futuro, teria orgulho dele? E ele, teria orgulho de mim?
O tempo passava lentamente e o problema apenas crescia.
Planejamentos são estranhos. Quão mais distantes da idealização, mais certeza de dar tudo errado. Em 5 anos, eu olharei para o espelho e não conseguirei ver quem sou hoje.
Por um momento, por um breve momento eu desejaria que um espelho perfeito existisse e eu pudesse me ver totalmente. Encontrar minhas próprias respostas para minhas próprias perguntas.
Mas como isso é impossível, eu apenas observo o espelho e imagino. Crio imagens do que poderia acontecer.
Se meu antigo eu me visse... Ele sorriria para mim?

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