Onde Estará Minha Casa?

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Estava nevando e eu já tinha admitido para mim mesmo que estava perdido. A queda repentina de neve fez com que eu não conseguisse me localizar para voltar pra casa.
Caminhava em uma direção que eu julgava ser a que tinha tomado até chegar ali, mas não importava o quanto eu andasse, apenas via árvores e neve. Por sorte eu estava bem agasalhado, mas se ficasse muito tempo perdido, durante a noite seria um problema.
Continuei caminhando até que decidi parar e olhar em volta, ao longe avistei uma pequena casa e resolvi ir até lá.

Chegando perto vi que era uma casa pequena com dois andares, bati na porta e não obtive nenhuma resposta, quando me virei para ver se conseguiria observar alguma das janelas, a porta abriu e um homem velho me atendeu.

- Oi, posso ajudar?

Eu não sabia como pedir de uma maneira educada para ficar ali até a neve parar de cair ou como voltar pra casa então apenas fiquei encarando o velho.

- Hmm, deixe me adivinhar, você se perdeu com essa neve, não é? – Ele disse.
- É... eu não sei como voltar pra cidade, saberia me indicar a direção, por favor?
- Sei, mas entre e tome um chá quente para se aquecer.

Resolvi entrar na casa do velho e a casa era bem aconchegante, móveis rústicos e aparentava que ninguém mais morava ali. Me sentei a uma cadeira de madeira junto a uma mesa e logo o velho trouxe uma caneca com chá quente.
Qual seu nome, filho? – Ele me perguntou.
- Andrew. – Respondi.
- Prazer, Andrew. Pode me chamar de Marston.
- O prazer é meu, e agradeço a gentileza, sr. Marston.
- Apenas me chame de Marston, e eu não poderia deixar um jovem congelando nessa neve.

Tomei o chá em alguns goles enquanto observava pelos cantos, um ambiente um tanto quanto desconfortável.

- Você mora na cidade perto daqui, Andrew? – Ele quebrou o silêncio.
- Não, vim passar uma semana aqui enquanto estou de férias, primeira vez e acabei me perdendo enquanto tentava me aventurar pela floresta.
- Haha, entendo. Sem conhecer bem esta floresta, você só conseguiria se localizar com uma bússola. Mas então, de onde você é?
- Moro em uma cidade a 2 horas de carro daqui com meus pais, mas pretendo me mudar logo.
- Fazer faculdade em outro lugar?
- Não, eu só quero me mudar para algum lugar novo.
- Geralmente jovens da sua idade tem medo do novo, você é diferente.
- Mais ou menos. Sou curioso. Sempre vivi na mesma cidade e até agora não conheci muitos outros lugares, então quero conhecer mais do mundo.

De repente a neve começou a cair mais rapidamente e o sol estava se pondo.
- Essa neve não vai parar de cair por um tempo, acho melhor passar a noite aqui. – Disse o velho.

Parei para pensar e não queria ter de passar uma noite em uma casa de um desconhecido, mas se eu tentasse voltar para cidade, era capaz de ficar pior que isso, então decidi ficar.

- Se não for um incomodo, aceito a oferta. – Respondi.
- Não será incomodo algum.
- Obrigado. Já que me perguntou de onde vim, eu fiquei curioso, você mora aqui mesmo, nesta floresta?

Marston deu um leve sorriso e desviou o olhar por um segundo então respondeu com a cabeça um pouco baixa.

- Por enquanto sim, mas gosto de pensar que sou um andarilho. Vivo me mudando, de lá para cá, conhecendo novas pessoas e novos lugares.
- Há quanto tempo está aqui?
- Poucas semanas.
- Pretende ficar por muito tempo?
- Não tenho um tempo certo, vou para outro lugar quando sentir que devo ir.
- Mas você não tem família, uma esposa ou filhos?
- Não, sou só eu.

Naquele momento me bateu uma pena. Um velho morando sozinho, sem ao menos uma companheira ou um filho na terra. Ele percebeu meu sentimento pela minha expressão e deu uma risada

- Não se sinta assim, fui eu quem escolhi não ter uma casa!
- Mas... eu estou na sua casa. – Respondi confuso.
- Não, você não pode estar na minha casa porque eu não tenho uma casa.

Fiquei o encarando esperando uma resposta ou encontrar algum sentido no que ele havia dito, mas nada.
- Isto aqui onde você está é um imóvel qualquer, casa ou lar, é apenas um lugar do mundo que uma pessoa pode ter.
- Como assim, apenas uma casa?
- Sim... você não tem algum lugar neste mundo que se sinta você mesmo, sem precisar de mais nada, se sente em paz, o melhor lugar do mundo, mas só para você?

Refleti por alguns momentos mas não me lembrei de nada.
- Não, eu não tenho uma casa. – Respondi baixo.
- Não se sinta mal, você ainda é jovem, vai encontrar ou construir sua própria casa, um lugar que sempre vai poder voltar quando as coisas estiverem ruins.
- Mas você já está velho e ainda não tem uma casa. – Questionei


- Haha, você é esperto, e isso é verdade, mas como disse, eu escolhi não ter uma casa. Já tive uma, mas então cheguei em um ponto da minha vida onde decidi que não haveria muito tempo para conhecer tudo que queria, então sacrifiquei minha casa para realizar meu desejo.
- E valeu a pena? – Fiquei curioso
- Sim. É difícil não ter uma casa ao mesmo tempo que é bom, porque assim eu apenas continuo caminhando em frente, talvez encontre uma casa onde seja melhor que a antiga!
- Mas esse não é seu objetivo, é?
- Não, meu objetivo é vagar pelo mundo e entender mais sobre ele.
- E onde era sua casa?
- A cidade antiga que morava fixamente, uma cidade pequena do interior, tudo era tranquilo, eu conhecia muitas pessoas que viviam lá e trabalhava como professor e fazia trabalho voluntário em um hospital.
- Você aparentava ser bem feliz nessa época, deixar isso de lado, é algo... arriscado. – Respondi sem querer chamá-lo de idiota.
- Totalmente, mas a vida vai te obrigar a fazer escolhas arriscadas em algum momento. Logo você aprenderá.

Casa. Um lugar para que eu possa voltar quando tudo estiver em ruínas. Um lugar do mundo que por um momento eu possa fugir de tudo.

- Ah, mas casa não precisa ser necessariamente um lugar. Pode ser algo que você faça, um amor, você não tem algo perto disso? – Ele me perguntou

- Não... a coisa que mais me faz fantasiar é caminhar por um lugar desconhecido, como aconteceu comigo mais cedo. – Respondi.
- Não gosta de morar com seus pais?
- Gosto, mas não me sinto eu mesmo com eles.
- Senti isso também quando tinha sua idade. Bom, logo vai escurecer, quer me ajudar com a lenha para acendermos a lareira?

Era uma lareira pequena mas seria ótimo para uma noite fria que estava por vir. Ajudei Marston a acender a lareira e fiquei observando o anoitecer chegar pela janela que dava uma visão bonita do horizonte. Fui deitar cedo por estar cansado, mas não estava com tanto sono, o que me faz ficar rolando na cama enquanto pensava sobre casa.

Um lugar para onde eu sempre posso voltar. Me perco em um mundo de fantasia enquanto caminho sem rumo, mas a ideia de ter uma casa me parece ótima.  Como seria a minha casa? Um lugar, alguma atividade, uma pessoa... Tantos modos, mas até agora eu nem imaginava como poderia ser. Mas apenas o futuro para me dizer.

Sem perceber cai no sono e quando acordei era de manhã, levantei da cama e fui em direção procurar por Marston mas não encontrei, chamei por seu nome mas nenhum sinal. Avistei um caderno e pensei em deixar um bilhete agradecendo a estadia, então procurei uma caneta, a encontrei e escrevi:



Não te encontrei e já tenho de partir, agradeço pela estadia, pelo chá e pelos ensinamentos. Antes de voltar para casa dos meus pais venho te visitar mais uma vez para conversarmos um pouco mais.
                                                                                              - Andrew.

Sai da casa de Marston e segui a direção que ele havia me indicado na noite anterior. Caminhei por pouco menos de meia hora e cheguei a cidade. Tomei um banho, troquei de roupa e fui me alimentar. Tive o resto do dia tranquilo e pensando naquilo sobre casa. Iria embora no dia seguinte de noite então planejei voltar a casa de Marston durante a tarde.

No dia seguinte, levantei cedo e me preparei para a caminhada. Sai da cidade e desta vez levei uma bussola, como ele recomendou. Andei na mesma direção de quando vim embora mas já tinha passado mais de meia hora e não avistava a casa. Continuei caminhando mais um pouco até que vi um ponto diferenciado no meu campo de visão.

Me aproximei e era mesmo a casa de Marston, mas estava totalmente diferente, como se estivesse abandonada por anos. A porta estava encostada e quando a abri, não havia móvel algum e o chão estava rangendo. A lareira estava sem madeira queimada alguma.

Fiquei pensando como aquilo era possível, Marston não conseguiria deixar a casa com essa aparência em um dia, teria sido um sonho? Me sentei no mesmo lugar onde estava a cadeira de madeira onde conversei com ele por tanto tempo, e em minha memória, estava tudo tão nítido.

Fiquei parado por alguns minutos então me levantei. Não consegui compreender como isso tinha acontecido, mas o mais importante foi a lição que tirei. A lição do que é uma casa. Eu ainda não tenho uma casa, sou um andarilho que vaga pelo mundo, mas um dia, encontrarei minha casa. Deixarei de vagar sem rumo por qualquer lugar deste mundo e começarei a correr no sentido do melhor lugar do meu mundo.

- Onde estará minha casa?

Um comentário

  1. Não importa onde será ou então você vai encontrar, mas saiba que sempre vai morar no meu coração! :3

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