-Você viu? O Marcus
se machucou no campo, o idiota do Alex deve ter ficado com raiva dele e no jogo
de hoje acabou derrubando ele durante o jogo. –Monica dizia.
-Sério? Que idiotice! – Alice respondeu.
- Sério, foi por um negócio tão besta, o Marcus não tem culpa da namorada do Alex ter terminado com ele pra ficar com o Marcus. Ninguém mandou ser um imbecil. Não é mesmo Angela? – Monica me perguntou.
-Ahn? Ah... sim. – Respondi sem saber o que o assunto era.
O sinal soou e estávamos retornando a sala de aula enquanto as duas não paravam de fofocar sobre a briga dos garotos. Eu estava apenas pensando em como iria continuar meu livro, cheguei em uma parte que não sabia o que fazer, e como amava escrever, tinha se tornado um transtorno.
- Angela, o que aconteceu com você? Você tá toda desligada. – Monica me perguntou.
-Não é nada, só estou com um pouco de sono, fui dormir tarde. – Respondi.
-Cabeçuda, não é fácil acordar 7h da manhã.
-Eu sei, vou tentar dormir mais cedo hoje.
Monica era minha melhor amiga, apesar de não termos muito em comum, eu ser mais quieta e comportada e ela agitada e sem noção, éramos boas amigas, essa diferença toda nos fazia ajudar uma a outra, pois o ponto fraco de uma, era o ponto forte da outra. Tivemos nossas desavenças, mas que amizade não tem? E a Alice era uma garota que tinha entrado há 6 meses na escola e tinha uma grande amizade com a Monica, não muito comigo, apesar de gostarmos de algumas mesmas coisas.
-Ok, que aula é agora? –Monica me perguntou.
-Matemática, provavelmente a entrega daquela prova que fizemos na última aula. – Respondi.
- Números são complicados demais, só deveria existir de 1 a 10. – Ela respondeu.
- 1 a 10 deve ser a quantidade de neurônios que tem nessa cabeça aí – Alice riu.
- Olha quem fala, cabeçuda. – Monica também riu.
O Professor, Albert, nos entregou as provas, sobre Progressão Aritmética, não tinha sido uma prova difícil, consegui tirar um 9. Logo que Monica e Alice pegaram as provas as duas começaram a zombar uma da outra.
- E aí cabeça de vento, quanto, 2? – Monica perguntou
- Tirei um 7, e você, 1,5? – Ela retrucou.
- Um 5. E cale a sua boca.
- Ei, professor, quando será a recuperação? Tem pessoas precisando urgentemente!
- Cale a boca, cabeçuda, deixa me ver sua prova, só pode estar errada alguma coisa. – Monica pegou a prova da mão da Alice e começou a observar.
- Como você conseguiu errar essa pergunta? Era a mais fácil da prova toda. E ainda quer falar algo pra mim! – Monica retrucou
- O que foi, nota 5? – Alice dizia.
E aquela conversa foi longe. Não era uma briga, as duas adoravam tirar sarro da cara da outra. E nunca brigaram por isso, era a forma delas de se divertirem, eu não entendia aquilo, apesar de também rir do que as duas falavam.
A correção da prova tinha terminado e aula logo acabou. Depois tivemos mais duas aulas de Inglês, uma tradução de música. A Monica apesar de ser uma aluna desastrada, ia bem em Inglês, ela ficava escutando tanta música em inglês e vendo as traduções que ela sabia muita coisa. Até conseguia falar bem com outras pessoas.
O sinal da última aula tinha soado e fomos saindo bem devagar de nossas salas, fomos até o corredor.
- Até que enfim acabou, até amanhã escola. – Monica dizia.
- Não se esqueça de estudar pra recuperação hein, é depois de amanhã – Alice retrucou.
- Cala boca, Alice.
Enquanto caminhávamos para fora do prédio, vimos um garoto vindo no sentido contrário, era alto, bem magro e tinha um cabelo loiro e liso. Nunca tinha visto ele na escola. Passamos por ele e Monica já começou a resmungar.
- Viram aquele estranho? É o garoto novo da escola. Estão o chamando de garoto prodígio, só porque conseguiu uma nota perfeita na prova pra poder entrar aqui. – Monica disse.
- Você devia ter umas aulinhas com ele, haha. – Alice disse.
- Já chega de me chamar de burra por hoje, a cota já deu.
- Qual o nome dele ? – Perguntei.
- É algo parecido com Alf... Alfred! É Alfred. – Alice me respondeu.
- Nunca ouvi falar. – Disse.
- Só iria ouvir o quanto ele é inteligente. Bom, até amanhã ladies. – Monica se despediu
- Tchau, até. – Alice disse
- Vou ficar para o teatro, vejo vocês amanhã. – Fiquei para trás.
- Tchau Angela, e durma bem hoje. – Monica sorriu.
Eu estava no meu segundo ano de teatro, fazia na mesma escola em que estudava. Eu era a única da minha classe, mas tinha amizade com os outros de turmas diferentes. Logo quando cheguei, vi em uma poltrona do canto, o tal aluno novo, Alfred. Como devia ser os primeiros dias na nova escola, acho que aproveitou a chance para conhecer mais.
Tive todo minha aula e ele ficou ali observando, nem precisava dizer que era um cara quieto. Depois do ensaio, peguei minha mala e minha pasta e fui para a saída, ele estava lá, e veio andando na minha direção do outro lado do corredor. Acidentalmente cai, estava com a minha pasta e ele com a dele, e fui ao chão. Várias folhas se espalharam pelo corredor e ele se abaixou para pegar.
-Desculpe-me, foi culpa minha. – Disse.
- Não se preocupe, acontece. Está tudo bem? – Ele respondeu me entregando uma das folhas.
- Sim, obrigado.
Ele me entregou as ultimas folhas, pedi desculpas mais uma vez, ele me disse para não se preocupar e foi andando pelo corredor, e eu fiquei parada ali observando, ele não era monstruoso e até era sociável. Saí da escola ainda eram 15h, fui para casa caminhando, por uns 20 minutos, cheguei e logo fui tirar um cochilo. Quando acordei já tinha se passado das 17h. Fui até a cozinha, preparei um café e tomei, meus pais chegariam só as 18h30.
Subi até meu quarto e peguei minha pasta do teatro, guardava os textos ali. Comecei a folhear e não estava achando uma das folhas da peça que estávamos ensaiando, procurei melhor e acabei achando uma folha que não era minha, era um poema.
Delírio do Silêncio.
-Sério? Que idiotice! – Alice respondeu.
- Sério, foi por um negócio tão besta, o Marcus não tem culpa da namorada do Alex ter terminado com ele pra ficar com o Marcus. Ninguém mandou ser um imbecil. Não é mesmo Angela? – Monica me perguntou.
-Ahn? Ah... sim. – Respondi sem saber o que o assunto era.
O sinal soou e estávamos retornando a sala de aula enquanto as duas não paravam de fofocar sobre a briga dos garotos. Eu estava apenas pensando em como iria continuar meu livro, cheguei em uma parte que não sabia o que fazer, e como amava escrever, tinha se tornado um transtorno.
- Angela, o que aconteceu com você? Você tá toda desligada. – Monica me perguntou.
-Não é nada, só estou com um pouco de sono, fui dormir tarde. – Respondi.
-Cabeçuda, não é fácil acordar 7h da manhã.
-Eu sei, vou tentar dormir mais cedo hoje.
Monica era minha melhor amiga, apesar de não termos muito em comum, eu ser mais quieta e comportada e ela agitada e sem noção, éramos boas amigas, essa diferença toda nos fazia ajudar uma a outra, pois o ponto fraco de uma, era o ponto forte da outra. Tivemos nossas desavenças, mas que amizade não tem? E a Alice era uma garota que tinha entrado há 6 meses na escola e tinha uma grande amizade com a Monica, não muito comigo, apesar de gostarmos de algumas mesmas coisas.
-Ok, que aula é agora? –Monica me perguntou.
-Matemática, provavelmente a entrega daquela prova que fizemos na última aula. – Respondi.
- Números são complicados demais, só deveria existir de 1 a 10. – Ela respondeu.
- 1 a 10 deve ser a quantidade de neurônios que tem nessa cabeça aí – Alice riu.
- Olha quem fala, cabeçuda. – Monica também riu.
O Professor, Albert, nos entregou as provas, sobre Progressão Aritmética, não tinha sido uma prova difícil, consegui tirar um 9. Logo que Monica e Alice pegaram as provas as duas começaram a zombar uma da outra.
- E aí cabeça de vento, quanto, 2? – Monica perguntou
- Tirei um 7, e você, 1,5? – Ela retrucou.
- Um 5. E cale a sua boca.
- Ei, professor, quando será a recuperação? Tem pessoas precisando urgentemente!
- Cale a boca, cabeçuda, deixa me ver sua prova, só pode estar errada alguma coisa. – Monica pegou a prova da mão da Alice e começou a observar.
- Como você conseguiu errar essa pergunta? Era a mais fácil da prova toda. E ainda quer falar algo pra mim! – Monica retrucou
- O que foi, nota 5? – Alice dizia.
E aquela conversa foi longe. Não era uma briga, as duas adoravam tirar sarro da cara da outra. E nunca brigaram por isso, era a forma delas de se divertirem, eu não entendia aquilo, apesar de também rir do que as duas falavam.
A correção da prova tinha terminado e aula logo acabou. Depois tivemos mais duas aulas de Inglês, uma tradução de música. A Monica apesar de ser uma aluna desastrada, ia bem em Inglês, ela ficava escutando tanta música em inglês e vendo as traduções que ela sabia muita coisa. Até conseguia falar bem com outras pessoas.
O sinal da última aula tinha soado e fomos saindo bem devagar de nossas salas, fomos até o corredor.
- Até que enfim acabou, até amanhã escola. – Monica dizia.
- Não se esqueça de estudar pra recuperação hein, é depois de amanhã – Alice retrucou.
- Cala boca, Alice.
Enquanto caminhávamos para fora do prédio, vimos um garoto vindo no sentido contrário, era alto, bem magro e tinha um cabelo loiro e liso. Nunca tinha visto ele na escola. Passamos por ele e Monica já começou a resmungar.
- Viram aquele estranho? É o garoto novo da escola. Estão o chamando de garoto prodígio, só porque conseguiu uma nota perfeita na prova pra poder entrar aqui. – Monica disse.
- Você devia ter umas aulinhas com ele, haha. – Alice disse.
- Já chega de me chamar de burra por hoje, a cota já deu.
- Qual o nome dele ? – Perguntei.
- É algo parecido com Alf... Alfred! É Alfred. – Alice me respondeu.
- Nunca ouvi falar. – Disse.
- Só iria ouvir o quanto ele é inteligente. Bom, até amanhã ladies. – Monica se despediu
- Tchau, até. – Alice disse
- Vou ficar para o teatro, vejo vocês amanhã. – Fiquei para trás.
- Tchau Angela, e durma bem hoje. – Monica sorriu.
Eu estava no meu segundo ano de teatro, fazia na mesma escola em que estudava. Eu era a única da minha classe, mas tinha amizade com os outros de turmas diferentes. Logo quando cheguei, vi em uma poltrona do canto, o tal aluno novo, Alfred. Como devia ser os primeiros dias na nova escola, acho que aproveitou a chance para conhecer mais.
Tive todo minha aula e ele ficou ali observando, nem precisava dizer que era um cara quieto. Depois do ensaio, peguei minha mala e minha pasta e fui para a saída, ele estava lá, e veio andando na minha direção do outro lado do corredor. Acidentalmente cai, estava com a minha pasta e ele com a dele, e fui ao chão. Várias folhas se espalharam pelo corredor e ele se abaixou para pegar.
-Desculpe-me, foi culpa minha. – Disse.
- Não se preocupe, acontece. Está tudo bem? – Ele respondeu me entregando uma das folhas.
- Sim, obrigado.
Ele me entregou as ultimas folhas, pedi desculpas mais uma vez, ele me disse para não se preocupar e foi andando pelo corredor, e eu fiquei parada ali observando, ele não era monstruoso e até era sociável. Saí da escola ainda eram 15h, fui para casa caminhando, por uns 20 minutos, cheguei e logo fui tirar um cochilo. Quando acordei já tinha se passado das 17h. Fui até a cozinha, preparei um café e tomei, meus pais chegariam só as 18h30.
Subi até meu quarto e peguei minha pasta do teatro, guardava os textos ali. Comecei a folhear e não estava achando uma das folhas da peça que estávamos ensaiando, procurei melhor e acabei achando uma folha que não era minha, era um poema.
Delírio do Silêncio.
Este quarto vazio acabou tornando-se uma prisão
as minhas palavras não chegam a lugar algum.
O silêncio acabou tornando-se um estrondo.
Chegando a todos os lugares.
O colapso acabara,
mas não deixara de criar delírios.
Enquanto rosas caiam,
as lágrimas não se cessavam.
Mesmo que a tempestade já tivesse ido,
O arco-íris não assumira forma.
As cores foram embora,
deixando apenas o cinza.
deixando apenas o preto.
e apenas o silêncio.
O silêncio acabou tomando posse do quarto.
O quarto que possuía a janela dos sonhos.
Sonhos que davam liberdade às palavras.
Palavras que transformavam-na em sentimentos.
Sentimentos que ficaram aprisionados.
Aprisionados no arco íris sem cor.
as minhas palavras não chegam a lugar algum.
O silêncio acabou tornando-se um estrondo.
Chegando a todos os lugares.
O colapso acabara,
mas não deixara de criar delírios.
Enquanto rosas caiam,
as lágrimas não se cessavam.
Mesmo que a tempestade já tivesse ido,
O arco-íris não assumira forma.
As cores foram embora,
deixando apenas o cinza.
deixando apenas o preto.
e apenas o silêncio.
O silêncio acabou tomando posse do quarto.
O quarto que possuía a janela dos sonhos.
Sonhos que davam liberdade às palavras.
Palavras que transformavam-na em sentimentos.
Sentimentos que ficaram aprisionados.
Aprisionados no arco íris sem cor.
Fiquei ali parada, perplexa. Aquilo só poderia ser do Alfred. E ele não estava nada feliz. O resto do dia fiquei pensando em como falaria para ele sobre termos trocado uma folha, e eu ter lido o poema que ele escreveu, acho que ele não ia gostar. Fui dormir cedo, e quando acordei, peguei de tudo que precisava e fui para a escola, era uma manhã fria. Quando cheguei lá, vi a Alice e a Monica, conversamos um pouco e tivemos as 3 primeiras aulas, que foram um pouco entediantes.
Saímos para o intervalo, peguei a folha, a dobrei e guardei na blusa. Seria um pouco chato se elas perguntassem o que era. Chegamos até os bancos onde sempre ficávamos no intervalo.
- Hoje tá pior que ontem – Monica disse.
- Parece que sim. – Alice concordou.
- Deve ser o frio. – Disse.
- Eu gosto do frio, mas para dormir. – Monica riu.
Me levantei e fui andando para um dos corredores.
- Ei, onde você vai ? – Alice perguntou.
- Vou tomar um pouco de água. – Menti.
Fui procurar pelo Alfred, com o papel na blusa. Acabei encontrando ele perto da sala de aula, devia ter acabado de sair.
-Hmmm... com licença? – Eu disse.
- Ahn? – Ele estranhou.
- É Alfred, certo? Eu acho que ontem no teatro trocamos uma folha, você deve ter ficado com uma folha da minha peça.
- Ah, vou dar uma olhada, espere aqui.
Ele entrou na sala e eu fiquei na porta esperando. Ele não parecia ser um cara de muitos amigos, era um nerd, mais social.
- É este aqui? – Ele mostrou a folha para mim.
- É sim. – Eu disse.
- Toma, desculpa, eu não tinha percebido.
- Tudo bem, e a propósito... Eu fiquei com uma folha sua também, está aqui.
Entreguei a folha, que estava dobrada, ele pegou, a desdobrou e percebeu o que era.
- Você leu? – Ele perguntou.
- Sim... você escreve bem.
- Obrigado, mas não acredito nisso, foi só uma besteira qualquer. Perdeu tempo.
Ele amassou a folha, a jogou fora e saiu andando.
- Alfred, se você puder vir amanhã ao teatro de novo, poderia te apresentar à professora e aos outros alunos, por que você não participa? – Perguntei.
Ele parou de andar, olhou para mim e disse:
- Não parece algo cabível.
E voltou a andar. O resto daquele dia foi entediante, tanto na escola como em casa. No outro dia, a escola tinha sido sem graça, nem as palhaçadas da Monica com Alice me fizeram rir direito, parecia que eu tinha feito um crime. Fui para o teatro, e Alfred não estava lá. Não é como se eu estivesse apaixonada ou algo do gênero, eu só queria saber mais das suas escritas, eu também gostava de escrever. Depois do ensaio fui a última a sair do teatro, andando lentamente e olhando para o chão.
- Parece que alguém aqui não está muito feliz. – Disse.
Eu olhei e era ele. Ele estava apoiado e veio andando até mim.
- Não é nada. – Respondi.
- Eu vim até aqui, mas acho que cheguei tarde. Por que acha que eu seria bom ator? – Ele indagou.
- Você escreve bem. Venha até aqui.
As luzes do palco ainda estavam acesas, então ele se sentou em uma poltrona e eu comecei a apresentar uma parte da peça que eu estava ensaiando. Ao final, ele bateu palmas.
- Entende agora? Você também pode fazer isso, até muito melhor. O palco torna-se seu mundo, você já faz isso com as palavras, com o palco não vai ser problema. Se você se sentir livre aqui, conseguirá tornar a fantasia, em realidade. – Disse à ele
- Uau. Impressionante. Então eu deveria tentar? Vamos lá, me ensine um pouco.
Ele subiu ao palco e começou a imitar o que eu fazia, enquanto eu corrigia os erros. Era um teatro, mas parecia que era uma apresentação de dois palhaços. Aquele garoto tímido estava rindo em cima do palco, e eu estava feliz com aquilo, o riso dele contagiava o meu.
Depois de brincarmos ali no palco, nos sentamos e começamos a rir, tinha sido divertido. Nos levantamos e fomos andando para fora do teatro, ele começou a me falar.
- Gostei do que fizemos, apesar de ter sido só uma brincadeira.
- Mas pode ser algo muito melhor quando levado a sério, você devia tentar. – Respondi.
- Não sei, eu sou um cara tímido, apresentar algo em meio a tantas pessoas assim, seria difícil para mim, não consigo mostrar minhas poesias a uma pessoa, de longe conseguiria encenar em meio à centenas. – Ele ficou cabisbaixo.
- Eu também sou tímida, mas com o tempo fui perdendo essa timidez no palco, acabou sendo natural, ainda tenho problemas para conhecer pessoas novas, mas me sinto tão bem quando enceno que nenhuma vergonha é problema. O que acha de começar a vir ter aulas?
- Ok... você me convenceu.
Depois dali nos despedimos e fomos por caminhos diferentes. Ele veio no dia seguinte ensaiar, apresentou-se a todos com um certo sacrifício e começou os treinos básicos com a ajuda da professora enquanto nós ensaiávamos a peça. Seria apresentada dali duas semanas.
Alguns dias se passaram e a professora decidiu dar um papel pequeno à ele na peça, falaria apenas duas frases, apenas para ele se acostumar com o palco, com o novo mundo. Ainda faltavam 6 dias para a peça e ele começou a ensaiar a entonação, os movimentos, tudo, de acordo perfeitamente como a professora exigia. Tudo estava indo muito bem. Eu seria uma protagonista, a peça contava a história de um grupo amigos que queriam ser atores, duas garotas e dois garotos correndo atrás do sonho. Para alguns ali não era uma peça, era como uma biografia, eles se identificavam com tudo aquilo.
E era chegado o grande dia da peça. O teatro estava lotado, os pais de todos estavam ali, inclusive os meus, nas primeiras fileiras, com câmeras e ansiosos. Logo que a cortina se abriu, meu sonho começou. A peça se desenrolou de uma forma mágica, não parecia só um teatro, era mesmo um outro mundo. E logo chegou a parte do Alfred. Ele entrou em cena bem calmamente, olhou para a plateia e permaneceu em silêncio. Fiquei com medo de que a peça fosse terminar ali, aquela pausa de alguns segundos parecia infindável. Até que...
- Senhores, a peça de vocês é hoje. Ponham em prática o que aprenderam neste tempo de trabalho árduo, acreditem em si, é o primeiro passo desta longa jornada. Olhem sempre a frente, que eu estarei os observando atentamente. Tornem o palco o mundo de vocês.
Aquilo não era a fala dele, ele tinha mudado o que deveria falar, o que seria apenas uma fala em que ele apoiaria os atores, foi uma lição, tinha ficado melhor do que estava. A peça tomou seu rumo, e ao final, tivemos uma grande salva de palmas. Fui até meus pais, eles me parabenizaram e algumas pessoas viram tirar foto comigo. Depois disso fui até os camarins trocar de roupa e Alfred estava lá, se aprontando para ir embora.
- Ei, parabéns! Aquilo foi impressionante. – Sorri.
- Você achou? – Ele também sorriu.
- Sim, e você ainda dizia que não seria bom nisso, foi espetacular.
- Obrigado, fico feliz que tenha gostado.
- Mas tenho que confessar, quando você ficou quieto, eu fiquei com medo.
- Eu também, ver todas aquelas pessoas ali, me encarando... Então me lembrei do que você me disse aquele dia, e disse aquilo. ‘’Tornem o palco o mundo de vocês.’’
- Foi tudo perfeito. Você não foi cumprimentar o pessoal?
- Não, acho que ninguém veio...
- Nem seus pais?
- Não.
Fiquei em silêncio, ele não tinha em falado que iria ficar sozinho depois da peça. Ele terminou de colocar a blusa e se despediu de mim com um beijo no rosto. Fui para casa com meus pais, e até o próximo dia de aula, não fiz nada de interessante e fiquei sem conversar com ele. Estávamos indo para o final de Novembro.
Quando voltamos para aula, a Monica e Alice vieram me dizer como eu tinha atuado bem, não sabia que elas tinham vido me assistir, não as vi. Como já era os últimos dias de aula, não tínhamos muito o que fazer em aula. Tentei continuar o meu livro, que tinha ficado abandonado por quase 3 semanas. Tentava criar um próximo capítulo, mas não ficava nada bom, até que decidi procurar o Alfred para me ajudar. E durante o intervalo fui conversar com ele.
- Alfred ? – Chamei.
- Hm? Oi Angela, como está ?
- Oi, bem e você?
- Igualmente. Quer falar algo comigo?
- Sim, eu queria pedir um favor na verdade. Queria que você me ajudasse com meu livro.
- Livro?
- Sim, eu gosto de escrever, é uma história boba, não crie grandes expectativas, mas o problema é que eu não sei dar continuação e queria que você me ajudasse com isso, já que você escreve tão bem.
- Será um prazer te ajudar, Angela.
- Você poderia ir em casa depois da aula? As folhas estão lá, você poderia ler e me dizer o que eu posso fazer, se não for incomodo.
- Certo, me espere na saída, então.
- Combinado. – Sorri.
- Te vejo lá, vou até a biblioteca entregar estes livros, até.
- Até.
Ao final da aula fomos para casa, minha mãe não tinha ido trabalhar então apresentei Alfred à ela, ela se lembrou na hora dele no dia da peça e o parabenizou, ele ficou um pouco envergonhado e fomos até a sala, onde ele começou a ler atentamente o livro, enquanto eu fiquei apreensiva, esperando que ele gostasse.
- Isso está ótimo, Angela. Confesso que foi um pouco torturante ter que fazer essa pausa. Queria ter continuado lendo. – Ele disse enquanto olhava para mim.
- Sério? Mas eu não sei como continuar.
- Você me ensinou a atuar, agora quero retribuir o favor te ensinando o que sei sobre escrever, já que você julga ser bom. Você se identifica com a personagem principal, certo?
- Sim, eu não sabia como imaginar uma pessoa diferente de mim para personagem principal.
- Certo, se é assim, escreva naturalmente. Transforme seus sentimentos em palavras, transcreva seus pensamentos. Não se preocupe tanto assim em ficar bom ou ruim, você vai perceber o que deve alterar, o que deve inserir. Imagine uma sala, um quadrado de 4 paredes brancas. Você já começou a preencher uma dessas paredes, com desenhos, com fotos, com detalhes. Agora você está tendo problemas para preencher a outra parede, olhe para a que você preencheu, você vai ter uma ideia, o que faltou em uma, você vai inserir na outra. Entendeu? – Ele completou.
- Eu acho que sim, eu deveria reler o livro e ver o que eu acho que fez falta e continuar a partir disto?
- Sim, de certa forma. Preencha as quatro paredes, complete a história.
Continuamos aquela conversa, e depois de alguns dias ele foi até em casa novamente e leu mais uma parte do livro, estava prestes a acabar. Contava a história de uma garota chamada Sarah e seu amigo Andrew, que eram amigos desde crianças, mas tiveram que se separar e depois de um tempo acabaram sendo inimigos. E em uma dessas visitas ele me fez uma proposta.
- Angela, o que acha de criarmos uma peça de teatro para apresentarmos logo depois do começo das férias? – Ele perguntou.
- Mas em tão pouco tempo? É impossível Alfred. Mesmo que você escreva tão bem, temos tão pouco tempo, tanto para escrever, chamar o pessoal e ensaiar, as aulas acabam daqui 10 dias.
- Poderia ser uma peça perto do natal. Eu tenho uma ideia, ouça.
Ele me disse a sua ideia sobre a peça, tinha observado algumas pessoas do teatro e sabia quem poderia chamar para os papéis, contaríamos a história de dois irmãos órfãos em busca de uma família na véspera de natal. Depois de falarmos sobre tudo, começamos a conversar.
- Você é um louco, já te disse isso? – Disse.
- Não, mas eu sei.
- Certo... Agora, temos muito trabalho a fazer.
Decidimos o que cada um ia fazer. Primeiro ele iria começar a montar o roteiro enquanto eu ligava para os outros alunos, felizmente, todos aceitaram. Contei um resumo da história e todos ficaram no mínimo emocionados com aquilo. Alfred era um gênio.
O trabalho árduo começou. Começamos a ensaiar todos os dias, e ainda ensaiávamos em casa. Alfred e eu seríamos os dois irmãos, Joseph e Beatrice. A peça seria apresentada no dia 23 e seria aberta à todos. Convidamos os pais, professores e alunos, mas parecia que o movimento seria pequeno. Apesar de que estávamos nos importando em ficarmos felizes em apresentarmos uma própria peça.
Quando o dia chegou, eu estava nervosa. No camarim, todos estavam se aprontando com suas determinadas vestes, e Alfred estava quieto num canto, o que não era nada estranho.
- E aí, ansioso? – Perguntei
- Até demais. Ainda mais porque... ah, esquece.
- O quê foi?
- Não é nada.
- Alfred, por favor, diga.
- Já que você insiste. Meus pais vieram até aqui. Eles nunca vem pra cidade, moro sozinho, eles pagam uma empregada para cuidar de tudo, e vieram até aqui hoje ver se essa escola está valendo a pena. Se eles decidirem que não, vão me tirar daqui, e eu não quero sair.
Eu o abracei e disse:
- Você não vai sair.
Ele se espantou e logo nos chamaram, a peça ia começar.
A peça começou, estranhei que também estava lotado, vi um senhor e uma senhora que pareciam muito ricos, deviam ser os pais dele. Ao longo da peça eu podia notar que o Alfred olhava para os pais, mas não se perdia, e ao fim entendi. Ele havia tornado o palco, o seu mundo. Ele queria encontrar seus pais, mesmo eles estando ali. Ele já sabia a história toda antes de escrevê-la. Ele escreveu naturalmente, seus sentimentos e pensamentos em palavras. Os personagens, Joseph, era ele, queria os pais, e por que eu seria a Beatrice... Eu tinha se tornado uma irmã para ele. Tinha me tornado uma pessoa com quem ele teve um laço forte. Aquele teatro, realmente tinha se tornado um mundo. O mundo que Alfred criou, uma página perdida em sua vida que ele construiu em cima do palco. Aquela peça não acabaria, era uma vida que estava sendo contada. Ao fechar das cortinas, um mundo deixaria de existir, alguém morreria. Ao final da peça, todos aplaudiram, até os pais do Alfred. Tínhamos construído tudo aquilo, e agora seria uma lembrança. Fomos até o camarim, ele estava feliz, mas ainda preocupado, seus pais iriam até lá.
Logo que entraram, me cumprimentaram e começaram a falar.
- Alfred, acredito que seja melhor irmos embora. Você não está usando todo seu potencial, deveríamos te mudar. – O pai dele disse.
- Certo, já que você acredita ser melhor assim. Até algum dia, Angela. – Alfre disse.
- Não, não está nada certo! – Falei alto.
- Vocês não entenderam nada disso? O Alfred fez essa peça pensando em vocês, ele quer pais que o apoiem, não que apenas queiram um filho que tire notas perfeitas, pais que o ajudem, que façam companhia, que se preocupem! Vocês se importam com isso? Ele criou uma história toda só para mostra para vocês que ele quer isso, e vocês ainda não deram importância alguma, abram seus olhos! – Falei cada vez mais alto.
- Angela, se acalme, você nã- Alfred foi interrompido.
- Isso é verdade, filho ?
Ele ficou quieto, olhou para mim, olhou para o chão e falou:
- Sim.
- Tudo isso par.. – dessa vez quem interrompeu foi Alfred.
- Vocês nunca entenderam, acham que é fácil não conversar com os pais? Não ter amigos nenhum na escola por eu ser o nerd? Vocês nunca entenderiam, só querem o status de ter um filho que tem as melhores notas! E agora que eu tenho uma felicidade, vocês querem tirá-la de mim?
Ele começou a chorar, e o seus pais estavam perplexos.
- Desculpe. Se você quer ficar tanto assim aqui, pode ficar. – O pai dele disse enquanto saia do camarim.
Ele ainda chorava então o abracei e repousei sua cabeça sobre meu ombro. Ele começou a se acalmar. Tínhamos acabado de sair do paraíso, o nosso palco. Agora estávamos no mundo real, que eu desejava que fosse ilusão. Aos poucos as lágrimas foram parando e eu disse:
- Sorria, o nosso mundo ainda vai ficar vivo muitas vezes, o nosso sonho vira à vida, alcançaremos nossos objetivos. O palco é nosso mundo, certo?
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